Pesquisa publicada na revista Nature revela que diferentes condições compartilham bases biológicas e podem fazer parte de um mesmo espectro, além de orientar novos tratamentos
Um dos maiores estudos já realizados na área de genética psiquiátrica identificou conexões biológicas entre 14 condições mentais, abrindo caminho para avanços no diagnóstico e no desenvolvimento de tratamentos mais direcionados. A pesquisa, que contou com participação da Unifesp, foi publicada na revista Nature e divulgada pela Agência Fapesp, analisou dados genéticos de mais de 1 milhão de pessoas e classificou os transtornos em cinco grandes grupos com variantes genéticas compartilhadas.
Os resultados reforçam uma mudança importante na forma de compreender a saúde mental. Em vez de doenças isoladas, os transtornos psiquiátricos passam a ser vistos como parte de um contínuo biológico, com interseções genéticas relevantes. Um exemplo é a esquizofrenia e o transtorno bipolar, que compartilham grande parte das variantes genéticas analisadas no estudo.
A análise permitiu organizar as condições em cinco grupos principais, incluindo transtornos compulsivos, neurodesenvolvimento, internalizantes, uso de substâncias e um eixo relacionado à esquizofrenia e bipolaridade. Essa categorização pode contribuir para diagnósticos mais precisos, especialmente diante de sintomas frequentemente sobrepostos.
A pesquisadora Sintia Belangero, professora da Escola Paulista de Medicina (EPM/Unifesp) – Campus São Paulo e apoiada pela Fapesp, também participou do estudo e destaca que os achados ajudam a explicar desafios clínicos recorrentes. “Os transtornos psiquiátricos compartilham sintomas, o que dificulta o diagnóstico baseado apenas na avaliação clínica”, afirma.
Segundo Belangero, a identificação dessas bases genéticas comuns pode apoiar uma abordagem mais integrada no cuidado em saúde mental. “Compreender essas relações genéticas pode permitir uma compreensão mais moderna da origem dessas condições e potenciais tratamentos mais direcionados”, explica.
Embora os transtornos mentais tenham causas multifatoriais, a pesquisa evidencia que a genética desempenha um papel importante na compreensão dessas condições, ainda pouco explorado no direcionamento terapêutico.
Para os pesquisadores, o avanço abre espaço para uma nova etapa na psiquiatria, com maior integração entre genética, neurociência e prática clínica. A expectativa é que, com o aprofundamento desses estudos, seja possível reduzir incertezas diagnósticas e ampliar a efetividade dos tratamentos disponíveis.
Acesse o artigo completo em: https://www.nature.com/articles/s41586-025-09820-3.
