Em um mundo cada vez mais digital, eventos de grande porte deixaram de ser apenas encontros presenciais para se tornarem verdadeiras plataformas de dados. Congressos internacionais, feiras corporativas, fóruns econômicos e encontros diplomáticos movimentam informações sensíveis que vão muito além da logística e da programação. Dados pessoais, credenciais de acesso, estratégias de negociação, comunicações internas e até informações de segurança de chefes de Estado circulam diariamente nos sistemas que sustentam esses eventos. Ainda assim, a cibersegurança continua sendo tratada, na prática, como um custo dispensável.

Segundo José de Souza Junior, diretor do Grupo RG Eventos, essa negligência está diretamente ligada à cultura organizacional e à forma como os gestores enxergam investimentos em tecnologia. “O que acontece em eventos, na prática, é que a cibersegurança não é vista como algo importante. Por quê? Porque é custo. E quando você tem uma limitação de recursos, os gestores não querem colocar”, afirma.

Essa lógica, segundo ele, ignora o papel estratégico da segurança da informação em um ambiente cada vez mais dependente de dados, parametrizações e inteligência artificial. “Hoje são dados, são parametrizações, inteligência artificial. São várias coisas das quais você depende. Não é mais só infraestrutura física”, destaca.

A comparação feita por José de Souza Junior ajuda a dimensionar o problema. “Ninguém vê a questão de água e esgoto como algo importante. Mas se o esgoto transbordar ou se você ficar sem água, aí todo mundo vai achar importante”, compara. Para ele, a cibersegurança ainda é vista como algo abstrato, até o momento em que uma falha expõe informações críticas e gera prejuízos irreversíveis.

Em eventos internacionais de grande porte, como a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP), os riscos se multiplicam. A organização de um evento dessa magnitude envolve sistemas que armazenam dados de delegações, agendas de chefes de Estado, informações sobre deslocamento, credenciais de acesso a áreas restritas, além de comunicações sensíveis entre governos e organismos internacionais. Um vazamento desses dados poderia comprometer negociações diplomáticas, expor estratégias políticas e gerar crises entre as nações participantes.

Relatórios da Agência da União Europeia para a Cibersegurança (ENISA) apontam que grandes eventos internacionais são alvos frequentes de ataques cibernéticos justamente pelo alto valor estratégico das informações envolvidas. Ataques de ransomware, espionagem digital e vazamento de dados são algumas das ameaças mais recorrentes nesse contexto. Um único incidente pode resultar em prejuízos financeiros milionários, além de danos à reputação de países, organizações e empresas envolvidas.

Apesar disso, a segurança digital ainda costuma ser incluída no orçamento apenas de forma reativa, quando exigida por contratos ou após incidentes anteriores. Para José de Souza Junior, esse comportamento reflete uma falta de maturidade digital. “É uma questão cultural. Quando você olha apenas para o recurso financeiro disponível e enxerga a segurança como algo que ‘agrega custo’, você não percebe que, na verdade, ela evita um prejuízo muito maior”, afirma o diretor do Grupo RG Eventos.

Além da proteção contra ataques externos, a cibersegurança em eventos também envolve a gestão adequada de dados pessoais, especialmente em um cenário regulatório mais rigoroso. Leis como a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), no Brasil, e o Regulamento Geral de Proteção de Dados (GDPR), na União Europeia, impõem responsabilidades claras sobre o tratamento de informações pessoais. Em eventos, isso inclui dados de participantes, palestrantes, patrocinadores e autoridades, coletados por meio de inscrições, aplicativos, credenciais digitais e sistemas de controle de acesso.

Falhas nesse processo podem resultar em multas, processos judiciais e perda de credibilidade institucional. Estudos da IBM Security mostram que o custo médio de uma violação de dados ultrapassa milhões de dólares, considerando gastos com resposta ao incidente, sanções legais e danos reputacionais. Em eventos internacionais, esse impacto é potencializado pela exposição global.

Outro ponto sensível é o uso crescente de tecnologias como reconhecimento facial, credenciais digitais, aplicativos de networking e plataformas baseadas em inteligência artificial para gestão de público e segurança. Embora essas soluções tragam eficiência, elas também ampliam a superfície de ataque. “Quando você começa a trabalhar com inteligência artificial e grandes volumes de dados, a segurança deixa de ser um detalhe técnico e passa a ser um requisito essencial da tecnologia”, ressalta José de Souza Junior.

Para ele, a transformação precisa começar na mentalidade dos organizadores e patrocinadores. “Eu tenho trabalhado de uma forma para implementar essas regras de segurança diante desse mundo digital, para que isso se torne uma referência e, a longo prazo, um requisito básico”, afirma. A ideia é que a cibersegurança deixe de ser vista como um diferencial opcional e passe a ser tratada como infraestrutura essencial, assim como energia elétrica, internet e segurança física.

Especialistas apontam que eventos que lidam com dados estratégicos precisam adotar uma abordagem integrada de segurança, envolvendo não apenas tecnologia, mas também treinamento de equipes, protocolos claros de acesso à informação e planos de resposta a incidentes. A ausência dessa preparação pode transformar um evento bem-sucedido em uma crise institucional.

Em um cenário global marcado por disputas geopolíticas, espionagem digital e ataques coordenados, a negligência com a cibersegurança em eventos representa um risco que vai além do prejuízo financeiro. Trata-se de proteger informações sensíveis, preservar a confiança entre nações e garantir a integridade de processos decisórios que impactam milhões de pessoas.

Como alerta José de Souza Junior, o problema não é a falta de tecnologia, mas a falta de consciência. “Enquanto a segurança for vista apenas como custo, ela será negligenciada. Mas quando o dano acontece, todos passam a enxergar o quanto ela era essencial”, conclui.

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